"Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Ninguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário.
Cumpre alto. Sê teu filho."
Ricardo Reis
Junto com a carta havia um bilhetinho de última hora. E foi com essas palavras que iniciei minha viagem no tempo e preparei o coração pras lágrimas que inivitavelmente chegaram. Nela perguntei por pessoas que não encontro mais. Talvez já soubesse que o tempo nos separa.
As esperanças que tinha, se cumpriram quase todas. Acho que só faltou o mestrado (mas no lugar ficou uma especialização) e voltar pra Tupã, que na época eu queria, hoje não quero mais.
Parei de fumar, coisa que na carta não acreditava conseguir. Encontrei amores que passaram e um amor que ficou. O livro que queria escrever virou blog, mas essa foi uma adaptação pra era digital.
Mágoas que pretendia curar passaram com certeza, mas novas mágoas tomaram seu lugar temporariamente. Sempre nos curamos e criamos novas feridas. Nos meus trinta anos, cogitava sinais do tempo na pele. Eles existem com certeza, mas não muitos. Tenho me cuidado pra que o tempo chegue devagar.
Escrevi a carta em um dia dos pais em que meu pai estranhamente não chorou ao telefone. No último domingo foi dia dos pais e ele chorou tanto que quase nem conseguiu falar comigo. Anda sensível esse vovô que se prepara dentro dele.
Meus sonhos de agora são maiores do que os de antes. Sonhava com coisas pequenas de quem inicia a vida. Tinha vinta anos, mas era uma menina na época. Pouco conhecia do mundo e das outras pessoas. Agora tenho mais segurança e não me afeta tanto o que pensam as outras pessoas sobre mim.
O final da carta foi arrebatador; é estranho como alguém que conhecia tão pouco do mundo pode mandar um recado que soa tão maduro e sábio.
“Espero que as coisas estejam bem melhores com você do que estão comigo. Talvez não tenha plantado tudo isso que esperava colher, mas ainda há tempo. Se nada tiver nascido, plante agora. Você terá dez anos de cultivo.”
Minha carta não era pessimista. Era uma motivação pra recomeçar se os primeiros 10 anos tivessem sido de fracasso. Acho que vou escrever a próxima pra daqui a cinco anos. Já nao tenho muito tempo a perder e foi muito motivador ver que mesmo sem me lembrar do que estava escrito, consegui conquistar o que desejava.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
O que será que está escrito na carta?
Gosto de remexer o passado. Ele me lembra de coisas importantes e metas que eu tinha e com o tempo se perderam. Não posso me esquecer delas. Esqueço a cada ano novo, que prometi aquela dieta pra voltar à forma de uns 4 anos atrás, a cada final de semana em casa, que tínhamos prometido sair mais, a cada chocolate, que preciso controlar minha ansiedade e assim sigo esquecendo o que quero e lembrando o que me agrada.
Sábado, me sentei na cama e começei a folhear o caderno que ganhei da minha tia Laís quando entrei na faculdade. “Pra você se lembrar de mim enquanto estuda”. Mas ele foi muito mais importante! Nele, muitos rabiscos e muitos textos, na maioria poemas tristes, muitas lágrimas que secaram sobre as folhas sem deixar marcas.
Penso o que fariam dele na ocasião de minha morte. Alguém leria? Não entenderiam muito da letra corrida, mais lenta que o pensamento que queria sair. Teriam pena da minha tristeza daquele tempo? Possivelmente. Eu não tenho. Aprendi muito sobre mim mesma naquela época que sofria longe da família, sem amor, sem muita perspectiva de futuro.
E foi justamente pelo futuro que folheei o tal caderno, presente da tia Laís. Entre suas páginas uma carta datada do dia 13 de agosto de 2000. Envelopada e com o endereço do remetente: Rua Benjamin Constant, 1430, apto 22, Centro, Londrina. Foi naquele quarto de uns dos meus lugares favoritos, Londrina, que escrevi uma carta para ser aberta 10 anos depois. Uma carta que guardei pacientemente sem jamais ter tentado burlar e ler pela transparência do envelope. O que sei é que o papel é amarelo, quase nada mais me lembro.
Sei que muitas das coisas escritas nela não aconteceram (10 anos mudam muita coisa)
e que aquela para quem pensava estar enviando a carta não existe, felizmente, já que seu futuro não seria muito feliz.
Sexta-feira, 13 de agosto (será que existe data mais mal vista em todo o calendário?) abrirei minha carta que desde o último sábado espera por mim ansiosamente ao lado do computador. Eu estou me preparando para escrever outra logo depois de ter lido a primeira. Mais dez anos sonhados, talvez, agora, com um pouco mais de otimismo.
Sábado, me sentei na cama e começei a folhear o caderno que ganhei da minha tia Laís quando entrei na faculdade. “Pra você se lembrar de mim enquanto estuda”. Mas ele foi muito mais importante! Nele, muitos rabiscos e muitos textos, na maioria poemas tristes, muitas lágrimas que secaram sobre as folhas sem deixar marcas.
Penso o que fariam dele na ocasião de minha morte. Alguém leria? Não entenderiam muito da letra corrida, mais lenta que o pensamento que queria sair. Teriam pena da minha tristeza daquele tempo? Possivelmente. Eu não tenho. Aprendi muito sobre mim mesma naquela época que sofria longe da família, sem amor, sem muita perspectiva de futuro.
E foi justamente pelo futuro que folheei o tal caderno, presente da tia Laís. Entre suas páginas uma carta datada do dia 13 de agosto de 2000. Envelopada e com o endereço do remetente: Rua Benjamin Constant, 1430, apto 22, Centro, Londrina. Foi naquele quarto de uns dos meus lugares favoritos, Londrina, que escrevi uma carta para ser aberta 10 anos depois. Uma carta que guardei pacientemente sem jamais ter tentado burlar e ler pela transparência do envelope. O que sei é que o papel é amarelo, quase nada mais me lembro.
Sei que muitas das coisas escritas nela não aconteceram (10 anos mudam muita coisa)
e que aquela para quem pensava estar enviando a carta não existe, felizmente, já que seu futuro não seria muito feliz.
Sexta-feira, 13 de agosto (será que existe data mais mal vista em todo o calendário?) abrirei minha carta que desde o último sábado espera por mim ansiosamente ao lado do computador. Eu estou me preparando para escrever outra logo depois de ter lido a primeira. Mais dez anos sonhados, talvez, agora, com um pouco mais de otimismo.
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